segunda-feira, 19 de abril de 2010

Deixe voar by Gilberto Dimenstein - Fonte @ PortalAprendiz/Twitter

Um dois mais importantes cineastas brasileiros, Cacá Diegues tem 70 anos, o que, por si só, lhe daria certo direito à arrogância ou à impaciência com o amadorismo. Apesar da fama e da idade, ele se submeteu a um exercício de humildade. Convocou centenas de jovens dos morros do Rio para participarem como coautores de um filme sobre as favelas -e aí teve de enfrentar (e perder), em diferentes fases do trabalho, várias discussões técnicas com amadores.

Desse laboratório, realizado no ano passado, saiu o "5x Favela", uma sequência de cinco histórias, cujo argumento e roteiro saíram da cabeça dos jovens. Com esse recurso, imaginava-se desmontar os estereótipos muitas vezes usados no cinema sobre as comunidades populares, onde parece que só existem bandidos e tipos desencaminhados.

Na quinta-feira passada, o filme foi escolhido para ser exibido em Cannes. Mais importante do que a repercussão internacional, é o "making of" pedagógico: conseguem-se façanhas notáveis quando o jovem é visto não como um problema, mas como uma solução -não só como espectador, mas como coautor.

Senhores candidatos, está aí, exatamente aí, um dos melhores meios de combater a violência e produzir gente que gosta de aprender.

Geralmente, os jovens são associados a algum tipo de encrenca, das drogas às pulseirinhas do sexo. Muitas vezes, são apresentados apenas como alienados ou bobocas que não resistem aos apelos publicitários das grifes. Estão numa fase de risco, é óbvio, mas, quando são convidados a colocar sua energia em criatividade e onde se sentem protagonistas, tornam-se solução.

É o que tenho testemunhado nos projetos que acompanho ou de que participo em várias partes do mundo, tanto em comunidades pobres como em escolas de elite. Na semana passada, mais um caso -e não com jovens da periferia, mas com alunos de algumas das mais destacadas escolas particulares de São Paulo.

Ao mesmo tempo em que era divulgada a mais completa investigação acadêmica sobre agressividade nas escolas brasileiras -o chamado bullying-, um punhado de adolescentes ensinava, nas telas, como traduzir essa crônica (e, pelo jeito, cada vez maior) humilhação.

Estudantes de escolas como Equipe, Santa Cruz, Oswald de Andrade, Dante, Arquidiocesano, Sion e Bandeirantes não apenas discutiram a violência nas escolas -entre os vários tipos de risco à adolescência- mas também interferiram no roteiro do filme e ocuparam os papéis. Desvendaram-se ali os códigos e os segredos da juventude, em conversas íntimas que, em alguns casos, acabaram com dores legendadas em lágrimas.

Tive de me submeter a uma espécie de suicídio autoral. Eles ajudaram a criar o roteiro e os diálogos de um filme sobre a juventude, a partir de uma série de livros ("Mano") que escrevi com a escritora Heloísa Prieto -todo o processo foi guiado pela diretora Laís Bodanzky e pelo roteiro de Luís Bolognesi. O que era uma obra com começo, meio e fim virou uma fonte de inspiração, o ponto de partida. Mudaram histórias. Não deixaram nem mesmo o título, do qual eu tanto gostava. Durante o processo de criação, mataram personagens, alguns deles tirados da vida real, inspirados nas pessoas que mais amo. Ao ver na tela "As Melhores Coisas do Mundo", tive de reconhecer que eles conseguiram soluções para se comunicar com os jovens de um jeito que um adulto não conseguiria. O desconforto foi trocado, no final, por uma sensação de prazer.

Prazer talvez por causa de uma frase que me disse Paulo Freire, durante um jantar em meu apartamento, em Nova York, embalado por muito vinho: "O educador morre quando deixa de aprender com seus alunos".

Foi por isso que Cacá conseguiu ajudar a produzir imagens geniais no "5x Favela". Uma delas, intitulada "Deixa Voar", era a de uma pipa que caiu no lado da favela dominado por uma facção rival. Montar modelos para jovens serem protagonistas é convidá-los a voar.

PS- Coloquei em meu site (www.dimenstein.com.br) mais detalhes sobre a experimentação conduzida por Cacá, além de imagens do filme.

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